A expansão do crédito imobiliário

Expansão depende de novas ações para obter recursos

Fonte: Valor Econômico, 24/mar

A expansão do crédito imobiliário depende do aumento das alternativas de funding para o sistema financeiro reduzir a dependência dos recursos da caderneta de poupança e do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Essa foi uma das conclusões do seminário Crédito Imobiliário, realizado quinta-feira pelo Valor.

credito-imobiliarioO aumento da participação de outros mecanismos de captação tem sido responsável pelo crescimento do crédito imobiliário no país. Instrumentos como as Letras de Crédito Imobiliária (LCI), Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI), alienação fiduciária (com o bem dado em garantia da operação de crédito), entre outros, vêm ganhando participação. Isso sem falar no home equity.

De acordo com Sérgio Odilon dos Anjos, chefe do departamento de regulação do sistema financeiro do Banco Central, a participação da poupança no financiamento imobiliário caiu de 80% em 2008 para 59% em 2013. Os recursos do FGTS subiram de 11% para 19%, enquanto os CRI passaram de 3% para 7% e as LCI triplicaram sua fatia, de 5% para 15%.

Dados da Cetip Mercados Organizados indicam uma evolução nos estoques desses papéis. Entre fevereiro de 2012 e o mesmo mês deste ano, o estoque de CRI registrado na central de liquidação financeira cresceu 59,6%, alcançando R$ 45 bilhões. As LCI mais que dobraram seu estoque, indo de R$ 49,7 bilhões para R$ 107,6 bilhões no mesmo período. Para Carlos Ratto, diretor executivo da Cetip, os números demonstram o claro entendimento do mercado para a necessidade de funding adicional para o mercado imobiliário.

O crescimento desses instrumentos deve induzir a expansão do setor, afirma Manoel Félix Cintra Neto, presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC). “O que limita a capacidade do sistema financeiro de oferecer crédito é o passivo, ou seja, a captação”, disse. Instrumentos como a LCI, por sua versatilidade, ajudaram a alongar os prazos de captação e atrair investidores, melhorando o funding. Também colaborou o aumento do limite do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 70 mil para R$ 250 mil por titular.

De acordo com os participantes, as alternativas de funding vão proporcionar uma oferta de crédito imobiliário mais condizente com o tamanho da economia brasileira. Dados da Caixa Econômica Federal (CEF) e do Banco Central indicam que hoje o crédito imobiliário corresponde a 8,2% do Produto Interno Bruto (PIB). Na média mundial, essa relação é em torno de 50%. Alguns países chegam a ter mais de 100%. Nos Estados Unidos a proporção alcança 83%.

O crescimento do funding vai permitir uma melhor distribuição do mercado entre os agentes financeiros, disse Teotonio Costa Rezende, diretor executivo de Habitação da CEF. Hoje o banco público detém 68,5% do mercado imobiliário do país. Embora essa seja uma das funções da Caixa, a alta concentração é um sério indicador da limitação da oferta de crédito.

O executivo da Caixa disse também que o aumento da concorrência vai alterar algumas das prioridades do tomador de empréstimo nos próximos anos. Segundo ele, a taxa de juro continuará sendo importante, mas será relativizada por fatores como agilidade no atendimento e qualidade na prestação de serviços.

Os palestrantes foram unânimes em negar a eventual existência de uma bolha imobiliária no Brasil. Uma das razões apontadas foi a sólida regulação e fiscalização promovidas pelo BC sobre as instituições financeiras. Mas o dado mais relevante veio das estatísticas do próprio BC. Segundo Odilon dos Anjos, 98,4% dos tomadores de empréstimos imobiliários do país estão adquirindo seu primeiro imóvel para moradia própria. Não há, portanto, o mesmo cenário de especulação ocorrido com financiamento de vários imóveis para a mesma pessoa que levou à crise do subprime nos Estados Unidos, em 2008.

Deixe uma resposta